Música: Prelúdio - Versão Contra
Baixo por Alexandre Magalhães
Texto de:
- Carolina Valverde Alves
- Edson Queiroz de Andrade
- João Gabriel Marques Fonseca
A execução de um instrumento
musical exige do músico um esforço físico e mental muito maior do
que em geral se imagina. O grau do esforço depende de fatores como
o tipo do instrumento, a duração da execução, as dificuldades
técnico-musicais da obra executada, as condições psicológicas do
executante durante a atividade, a qualidade da postura física, o
status muscular do instrumentista e a dificuldade em manter a
atenção simultânea às sensações corporais (“canal
cinestésico”) e auditivas (o maior interesse do musicista é
sempre o melhor resultado sonoro possível).
Com grande freqüência, os instrumentistas ficam sujeitos à
situações estressantes. A carga horária excessiva de estudo,
ensaios e apresentações, as provas, os concursos, a ansiedade de
desempenho, os instrumentos de má qualidade, remuneração ruim, luta
por espaço num mercado muito competitivo, tensão devido à
comparações, regentes e parcerias de relacionamento difícil, são
situações muito comuns no dia-a-dia do músico, grandes geradoras de
stress e tensão.
As características estruturais dos instrumentos e maneira de
tocá-los são, sem dúvida, os principais fatores responsáveis pela
geração de tensão muscular excessiva no músico. Cada instrumento
musical oferece um conjunto peculiar de desafios ao instrumentista.
Dentre eles, gostaríamos de destacar dois tipos de instrumentos: os
instrumentos de corda friccionada e o baixo elétrico. Os
instrumentistas de cordas parecem ser os mais sujeitos a tensão
muscular excessiva, e isto é particularmente importante entre
violinistas e violistas. Ao contrário do violoncelo e do
contrabaixo, apoiados no chão, o violino e a viola são apoiados
sobre o ombro esquerdo do executante obrigando o instrumentista a
usar o pescoço e os membros superiores de forma assimétrica e
ergonomicamente desfavorável. O baixo elétrico por sua vez, exige a
manutenção de uma acentuada flexão do punho direito e uma elevação
com protusão do ombro direito; além disso, é um instrumento muito
pesado, com cordas grossas que demandam muita força flexora dos
dedos.
A incidência de problemas físicos decorrentes da atividade
instrumental é muito elevada mas não tem sido estudados de forma
sistemática no Brasil. Em pesquisa, realizada na Escola de Música
da UFMG com o apoio do Pró-Reitoria de Pesquisa da UFMG, levantamos
dados sobre o estado de saúde e a incidência de problemas
músculo-articulares entre instrumentistas de cordas nos principais
centros culturais do país, e buscamos conhecer as possíveis causas
destes problemas e como foram solucionados pelos
músicos.
Na primeira fase do estudo, enviamos questionários para cerca de
1500 instrumentistas de cordas ligados a várias instituições em
todo o Brasil. No questionário foram avaliados a incidência e as
características dos problemas físicos apresentados pelo
instrumentista, as soluções já propostas e seus resultados. Na
segunda fase, foram realizados exames clínicos/cinesiológicos e
ortopédicos em um grupo escolhido de músicos que expressaram,
voluntariamente, o desejo de serem examinados. Na terceira foi
realizada uma avaliação estatística dos resultados obtidos nas duas
primeiras fases. Os resultados da pesquisa foram apresentados no I
Simpósio Nacional de Pesquisa em Performance Musical, realizado em
maio de 2000 na Universidade Federal de Minas Gerais.
Os resultados são alarmantes e demonstram a freqüência e a
gravidade do problema. Avaliados cerca de 400 questionários, 91%
dos instrumentistas disse já ter tido alguma forma de dor ou
desconforto físico aparentemente relacionado à execução
instrumental, 45% acredita que esses problemas sejam causados
diretamente pela atividade instrumental e 35% tiveram que parar de
tocar em algum momento, em decorrência do problema.
Foram identificadas quatro grandes causas de dor, tensão e fadiga
muscular nos instrumentistas. Em ordem de freqüência são
elas:
1.inadequações posturais primárias, ou seja má postura não
relacionada
necessariamente à execução do instrumento.
2.inadequações posturais secundárias à execução do instrumento,
decorrentes de
vícios técnicos de execução, inadequação da relação das dimensões
dos
acessórios (queixeira, espaldeira, etc.) do instrumento com as
dos
instrumentistas, e excesso de tensão durante a performance.
Essas duas causas são responsáveis por 90% dos problemas
observados.
3.vícios técnicos de execução sem grandes repercussões posturais,
mas
causadores de tensão ou contratura muscular excessiva com
sobrecarga articular
ou neuromuscular.
Observados em pouco mais de 9% dos músicos estudados
4. doenças orgânicas articulares e periarticulares
Observadas em menos de 1% dos músicos estudados.
Embora os vícios posturais sejam, a nosso ver, o principal
disparador dos problemas de dor, tensão e fadiga que afetam
os músicos, nossa experiência tem mostrado que cada instrumentista
tem que ser avaliado em sua individualidade e que os problemas não
devem ser generalizados.
Juntamente com essa pesquisa tem sido realizado um trabalho de
fisioterapia especializada para músicos, com os objetivos de:
· reabilitar os danos corporais causados pela repetição intensiva
de
movimentos, pela postura inadequada e pelos problemas de adaptação
do
instrumento ao corpo;
· melhorar a consciência corporal e postura durante a performance
para se
atingir um melhor resultado sonoro com menor gasto de
energia;
· melhorar a qualidade de vida do músico;
· prevenir lesões corporais.
No sentido de tornar mais e eficiente e operacional este trabalho,
foi criado o Núcleo de Atenção Integral á Saúde do Músico, serviço
pioneiro no país, que com participação de médicos de várias
especialidades (clínica médica, ortopedia,
pneumologia e otorrinolaringologia), fisioterapeutas, dentistas,
fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e psicólogos, e também com
a participação de músicos interessados na questão do
desenvolvimento técnico e na prevenção de lesões.
O Núcleo atuará no atendimento de músicos em geral -
instrumentistas, cantores e regentes e sua atuação não se limitará
ao tratamento de problemas já instalados, mas também, e
principalmente, em sua prevenção. Para isso fará parte regular do
trabalho do Núcleo, paralelamente às atividades essencialmente na
área da reabilitação global, a promoção de debates, cursos,
seminários e outras atividades didáticas com o objetivo de discutir
aspectos posturais e técnicos da execução de instrumentos musicais
e do uso da voz. Temos observado com prazer que esforços
semelhantes vem sendo realizados em vários locais no mundo e está
começando a se tornar freqüente uma maior consciência da
importância de uma utilização mais ergonômica e consciente do corpo
pelos músicos.
Sobre
os Autores:
- Carolina Valverde Alves; Fisioterapeuta formada na Faculdade de
Ciências
Médicas de Minas Gerais em 1991, especialista no Método
Neuroevolutivo Bobath e
em Terapia Manual. Trabalha com fisioterapia especializada para
músicos desde
1993.
- Edson Queiroz de Andrade; Doutor em Música, University of Iowa,
EUA;
Professor
de Violino da Escola de Música da UFMG; Diplomado em Odontologia
pela UFMG em
1982.
- João Gabriel Marques Fonseca; médico, musicista, Mestre em
Medicina pela
Universidade Federal de Minas Gerais, Professor Adjunto da
Faculdade de
Medicina e da Escola de Música da UFMG; Diretor Clínico do Centro
de Promoção
da Saúde (Belo Horizonte); Especialista em Cinesiologia Aplicada à
técnica de
instrumentos musicais.